domingo, 30 de novembro de 2014

Nove Mitos Sobre Missões - Por Timóteo Carriker



O trabalho missionário contemporâneo  implica em todo trabalho pastoral e além disto, tem que dar conta do fator  cultural.
Missões é um assunto de suma importância na Bíblia. Esta afirmação pode ser ilustrada por duas observações acerca de Jesus. Em primeiro lugar, em João 20.21, lemos que Jesus veio habitar entre nós sendo ele mesmo missionário de Deus e o modelo de missionário para seus discípulos, "assim como o Pai me enviou, eu vos envio" (nota-se que o termo "missionário" significa literalmente "enviado"). Sua vinda para este mundo, portanto, foi uma vinda missionária, que por sua vez cria o padrão para a tarefa missionária da igreja. Em segundo lugar, Jesus gastou seus últimos momentos no mundo, já ressurreto embora antes da ascensão, desafiando a igreja para sua tarefa missionária. Isto é o contexto dos cinco relatos da Grande Comissão (Mateus 28.18-20, Marcos 16.15, Lucas 24.44-49, João 20.21 e Atos 1.8). Certamente esta instrução dada nos últimos momentos de Jesus com seus discípulos merece certo relevo.
Contudo, apesar de tão grande destaque, existe hoje muito mal-entendido sobre a tarefa missionária. Através dos anos, criamos até mesmo uma série de mitos a este respeito. Queremos desvendar alguns destes mitos nesta reflexão.

 

Três Mitos Sobre Estratégia


 O primeiro mito parte dos "zelosos" e alega: missões estrangeiras são mais importantes que missões nacionais, nossa meta é ir literalmente até aos confins da terra. Uma implicação deste mi- to é que a distância que o missionário transcorre está em direta proporção com sua espiritualidade. Por isto, às vezes, inconscientemente, o trabalho do missionário no distante Amazonas ou até na África é considerado de mais valores que o trabalho realizado num bairro ou numa vila próxima.
Prega-se muito Atos 1.8 como a base deste mito e enfatiza-se a frase "até os confins da terra". Todavia, se fôssemos aplicar este versículo literalmente à tarefa contemporânea, o nosso alvo missionário, nosso "confins da terra", seria chegar até  a Oceania atualmente a região de maior porcentagem de cristãos praticantes no mundo inteiro (entre 80 a 95 % freqüentam a igreja!). E para Lucas, quanto mais longe o evangelho se espalhava de Jerusalém, mais encontrava com povos não-evangélicos. Hoje, graças a Deus, isto não é mais o caso. Há casos em que se formos para mais longe encontremos lugares com maior penetração do evangelho do que entre nos.
Portanto, nossa meta deve ser a meta de Paulo, pregar "não onde Cristo já fora anunciado" (Romanos 15.20), quer distante, quer próximo. É uma meta nem tanto geográfica quanto evangelística.
Segundo mito parte dos “duvidosos” e indaga: missões nacionais são mais importantes que missões estrangeiras; por que gastar tanto esforço e dinheiro lá quando há tanto ainda para fazer aqui?
Este mito também apela muito para Atos 1.8, mas enfatiza a idéia de ser testemunha primeiro em Jerusalém. Porem, o texto não fala "primeiro" mas tanto em Jerusalém como em toda Judéia e Samaria”. E, de fato, a igreja primitiva não esperava por uma saturação do evangelho em Jerusalém antes de prosseguir para outras regiões. O "tanto...como" indica que a obra missionária deve ser proporcional, A nossa está? No caso das denominações evangélicas norte-americanas, gastam apenas 5 % gasta em trabalho missionário entre povo que já têm fortes igrejas autóctones!), E as nossas igrejas no Brasil? A onde está nosso equilíbrio bíblico entre o trabalho missionário aqui e o trabalho lá?
De novo, a meta implícita em Atos 1.8, está explícita em Romanos 15.20: “não onde Cristo já fora anunciado”.
Um terceiro e novo mito divulgado pelos “ingênuos” é que: missões transculturais são “melhores” que missões monoculturais. Cita-se muito Mateus 28.19: “Fazei discípulos de todas as nações”, e observa-se que “nações”. significa não países inteiros, mas “etnias”, grupos humanos culturalmente definidos.
Pois bem, mas não é por isso que missões transculturais são “melhores” que as monoculturais, Aliás, em termos de afetividade, isto não é verdade. Sendo todos os outros fatores iguais, a evangelização realizada por alguém da própria cultura é bem mais efetiva que a evangelização realizada por alguém culturalmente estranho. Os brasileiros sabem ganhar melhor que os estrangeiros...
Por que, então, há tanta ênfase hoje em dia em missões transculturais? A razão é simples, embora nada tenha a ver com eficácia; Mais que três quarto dos povos ou etnias no mundo não possuem uma igreja autóctone que possa realizar a evangelização do seu povo. Isto  significa  que a evangelização destes povos só poderá ser realizada por pessoas duma outra cultura, isto é, transculturalmente. Não é que missões transculturais sejam melhores, mas são o único meio de alcançar os dois bilhões ainda não alcançados.

Três Mitos Sobre Preparo


Há também muita confusão quanto à preparação adequada para o desempenho missionário. Tratamos aqui de mais três mitos.
O primeiro é dos "reservados" e diz: a não ser que Deus dirija claramente ao contrário, devo permanecer aqui.
Mas, à luz da direção inequívoca da Bíblia em geral, da ordem explícita de Jesus em particular, e da situação contemporânea da evangelização mundial, parece-me que nossa orientação deve ser o contrário: a não ser que Deus dirija claramente ao contrário, devo ir, especial- mente "não onde Cristo já fora anuncia- do". Sem dúvida, a pressuposição de ir em vez de permanecer é bem mais difícil. Entretanto, não é mais coerente com o ensino bíblico e o contexto mundial de evangelização?
O segundo mito sobre o preparo missionário surge dos "ambiciosos" e assevera: quando Deus me chama devo atendê-lo imediatamente. apesar d ou não da igreja, Como todos os demais   mitos, este soa certo. Afinal de contas, não devemos obedecer antes a Deus do que aos homens?
Todavia, a exortação de obedecer a Deus antes do que aos homens, se refere aos homens incrédulos, não à igreja. É necessário que a igreja confirme o chamamento missionário e dê apoio em to- dos os sentidos para o candidato a missões. Consideremos o exemplo de Paulo: Ele mesmo identifica seu chamamento missionário com a sua conversão (Gálatas, 1.15-17). Mesmo assim, sua partida como missionário somente se realizou depois dum período de aprendizagem e ministério na igreja local e depois do re- conhecimento e apoio da mesma (Atos, 13.4).

Terceiro mito em relação ao preparo parte dos "pretensiosos” e pressupõe:
o melhor: o melhor preparo é mais próprio para os pastores os missionário, os não precisam de tanto, já que apenas dão inicio a um trabalho. Lógico, nunca se fala assim, mas a pratica demonstra que este mito é bem vivo. É refletido através de nível e duração dos cursos missionários que damos. através de outro preparo acadêmico que exigimos e através dos salários que damos.  E como se os candidatos que não dão certo no pastorado pudessem sempre recorrer para um ministério mais rústico e missionário.
Raparemos bem que a Igreja de Antioquia enviou seus melhores líderes para ba o trabalho missionário (Atos, 13.1-4). Paulo, Barnabé, Simeão, Lúcio de Cirene e Manaém eram mestres e profetas na igreja! Pelos padrões da maioria das nossas igrejas contemporâneas, seriam os últimos dos quais abriríamos a mão do ministério pastoral! Contudo, a Igreja primitiva enviou a “nata” da sua liderança.
O trabalho missionário contemporâneo implica em todo o trabalho pastoral e além disto, tem que dar conta do fator cultural. Por isso, exige mais e não, menos trabalho que o ministério doméstico. Além do treinamento tradicional nas áreas bíblicas, teológicas, histórica e pastorais, exige ainda conhecimento de antropologia, lingüística, religiões e estratégia. Precisamos mandar o melhor dos nossos líderes que possam ter este conhecimento e ainda enfrentar as pressões psicológicas resultantes de estarem longe de casa, numa cultura estranha, com  pouco apoio social e psicológico próximo. Não é de se admirar, então, que a Igreja primitiva não enviava qualquer um! 




Três Mitos Sobre o Papel do Brasil


Os seis mitos anteriores são característicos da igreja no mundo inteiro. Nós também os adotamos em grande parte. Mas há outros mitos mais característicos da igreja no Brasil em partícula.Voltemos nossa atenção para estes.
O primeiro brota dos "nacionalistas" e assegura: missões é coisa dos norte-americanos e europeus. Para ser justo, esta colocação é grandemente culpa dos próprios missionários estrangeiros no Brasil. Realizaram o trabalho, ora nobre e sacrificial ora dominador e paternalista, mas, com raríssimas exceções, não transmitiram a mesma visão missionária para as igrejas autóctones. Assim, deixaram a impressão de que missões e coisa que o Brasil recebe e não faz.
Tal imagem não pode ser bíblica. A igreja que não for missionária não pode ser igreja, pois nega a razão da sua existência (1 Pedro, 2.9-10). Por isso, a igreja n que não for missionária, logo se torna um campo missionário.
É animadora a observação de que em 1982, agências missionárias do Terceiro Mundo já enviaram 15.000 missionário em comparação com os 17.000 enviados pelas três principais entidades missionárias norte-americanas. Acredito que, à medida que a desconfiança do norte-americano e do europeu cresça no Terceiro Mundo, por razões justas ou não, a importância urgente de missionários do Terceiro Mundo vai criar um despertamento desta vocação, que terá como resultado a liderança das igrejas do Terceiro Mundo no avanço da evangelização mundial. 
Segundo mito vem dos “pessimistas” que advertem: o Brasil não tem recursos para missões no exterior. Também este mito é culpa, em parte, dos próprios missionários estrangeiros no Brasil. Através da sua administração financeira exorbitante e freqüentemente acima dos padrões financeiros da igreja autóctone, dão a impressão de que precisa-se de grandes recursos financeiros para se fazer missões.
Mas isto não é a verdade. A igreja primitiva de Jerusalém, a igreja-mãe do movimento cristão nascente, era pobre quando lançou o trabalho missionário. A igreja de Tessalônica tinha poucos recursos financeiros que não podia arcar com a as despesas de Paulo durante seu ministério lá (1 Tessalonicenses, 2.9). Mesmo assim, realizou um trabalho missionário que repercutiu por regiões bem extensas (1.8).
Os exemplos continuam hoje. Entre os Karen, um povo tribal na Birmânia, as donas de casa separam um punhado de arroz cada dia e oram simultaneamente pela evangelização de outros povos na Birmânia e na Índia. No final de cada semana, este arroz é vendido no mercado e o dinheiro enviado para missionários Karen evangelizando outros povos.
Os cristãos na Nigéria também estão to. ativamente empenhados na evangelização de tribos vizinhas, e têm pouquíssimos recursos financeiros. Até mesmo no Brasil, existem tribos indígenas aonde os convertidos evangelizam outras tribos de outras línguas e não dependem de muitos recursos financeiros.
Precisamos ser corajosos e criativos  na organização financeira do trabalho missionário, antes de tudo bíblicos, se depender de modelos financeiros exorbitantes e não-realizáveis.
Finalmente, observamos mais u mito sobre missões, o mito dos "calculadores". É o seguinte: se planejarmos o suficiente e aprendermos muita missiólogia, venceremos os problemas do passado e te- remos grande êxito. Felizmente, há um interesse crescente no Brasil pelo estudo de missões, a missiólogia, e isto, eu creio, deve preencher uma grande lacuna. Este desenvolvimento recente poderá ser uma tremenda contribuição ao preparo missionário. Também poderá deslocar os preparandos da dependência do poder de Deus através de oração e da dependência. do Espírito Santo para direção.
Paulo, o primeiro missiólogo e estrategista, reconhecia esta necessidade e resumiu todo seu trabalho missionário da seguinte maneira:
"... para conduzir os gentios à obediência, por palavra e por obras, por força de sinais de prodígios, pelo poder do Espírito Santo; de maneira que, desde Jerusalém e circunvizinhanças, até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo" Sua pregação consistia em "demonstração do Espírito e de poder" (1 Coríntios, 2.4, Atos, 19.9-12).
Um exemplo marcante desta dependência é o caso dos morávios do século -18, da Bavária, na Europa Central. Este grupo cristão pequeno iniciou uma vigília de oração que durou mais de 100 anos! E durante 28 anos, eles enviaram mais missionários (para Groenlândia, América do Norte, o Caribe, a África e a Ásia!) que todas as outras igrejas protestantes e anglicanas nos dois séculos de- pois da Reforma Protestante! Eram fruto de oração e dependência do Espírito Santo.
Concluímos nossa reflexão com o seguinte desafio e repensamento dos muitos elaborados: Nossa meta deve ser: não onde Cristo já foi anunciado. Nosso preparo deve ser o melhor. E nosso envolvimento deve ser a igreja brasileira comprometida e dependente do Espírito Santo.
Timóteo Carriker é professor de Teologia Bíblica de Missão, Panorama do Cristianismo Mundial, Antropologia Missionária e Crescimento da Igreja, no Centro Evangélico de Missões. Esta mensagem foi proferida por ocasião do culto de abertura das aulas do CEM, em março deste ano.


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